Imagem do governador do Banco do Canadá durante uma conferência de imprensa, com a bandeira do Canadá em segundo plano. A imagem ilustra um artigo sobre a decisão mais recente da taxa de juro, o impacto nas taxas de juro do crédito à habitação e os efeitos na acessibilidade à habitação para as famílias no Canadá. A imagem inclui o título: “Taxas de Juro, Habitação e o Papel do Banco do Canadá” e a marca Ganhos e Gastos.
Paulo Rocha

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O Banco do Canadá (BoC) manteve esta semana a sua taxa de juro de referência nos 2,75%. À primeira vista, pode parecer uma decisão esperada — mas dá sinais importantes sobre o que pode vir a seguir em termos de economia, taxas de juro e acessibilidade à habitação.

Aqui está o que precisa de saber.


1. Sete cortes desde 2024 — mas esse ciclo pode ter chegado ao fim

Desde abril de 2024, o Banco do Canadá reduziu a taxa de juro sete vezes, passando de 5,00% para 2,75%. Estes cortes ajudaram a reduzir os custos de crédito, dando algum alívio a proprietários e compradores.

Mas a pausa desta semana indica que novos cortes podem já não estar em cima da mesa, pelo menos a curto prazo.


2. A habitação teve menos destaque neste relatório

Em relatórios anteriores, a habitação era um tema constante — referida mais de 13 vezes, em média. No relatório mais recente? Apenas duas vezes.

Isto não quer dizer que a acessibilidade à habitação deixou de ser um problema. O que mostra é que o Banco está agora mais focado noutros riscos com impacto mais imediato, como as tensões comerciais globais e a inflação.


3. Riscos comerciais podem travar setores-chave da economia

Se a situação com as tarifas agravar-se, vários setores importantes no Canadá podem ser afetados, incluindo:

  • Indústria automóvel

  • Produção de aço e madeira

  • Exportações

  • Transporte e logística

Um abrandamento nestes setores pode enfraquecer a economia. E se a inflação subir ao mesmo tempo, o Banco do Canadá pode deixar de ter espaço para novos cortes — o que dificultaria ainda mais a acessibilidade à habitação.

O próprio governador do Banco do Canadá, Tiff Macklem, alertou este ano:

Tiff Macklem

-governador do Banco do Canadá-

Uma nova crise está no horizonte. Se as tarifas dos EUA se concretizarem como anunciado, o impacto económico será severo.

Este tipo de risco ajuda a explicar por que motivo o Banco está a agir com mais cautela, mesmo perante outros desafios como os preços da habitação.


4. O Banco do Canadá alertou para o risco de estagflação

A estagflação acontece quando a inflação permanece elevada ao mesmo tempo que a economia abranda.

Em situações normais, o Banco do Canadá reduziria as taxas para estimular a economia. Mas se a inflação continuar alta, essa estratégia pode piorar a situação. Por outro lado, subir as taxas pode agravar ainda mais o abrandamento económico.

É um cenário difícil de gerir — e o Banco já reconheceu publicamente que é um risco real.


5. A acessibilidade à habitação continua a ser um desafio

Mesmo com os cortes nas taxas ao longo do último ano, a acessibilidade à habitação pouco melhorou para a maioria dos canadianos. Em algumas regiões, como no mercado de condomínios, os preços baixaram ligeiramente. Mas no geral, para muitas famílias, comprar casa continua fora do alcance.

Os salários não acompanharam os aumentos dos preços da habitação, e apesar da ligeira descida nas taxas de juro, estas continuam elevadas em comparação com anos anteriores.

O gráfico abaixo mostra claramente o desfasamento crescente entre os preços reais das casas e o rendimento disponível real no Canadá:

Line chart showing the gap between house prices and disposable income in Canada from 1975 to 2021, highlighting housing affordability challenges.

Fonte: Macrobond, Macquarie Macro Strategy via National Post

Gráfico: Preços Reais das Casas vs Rendimento Disponível no Canadá (Q1 1975 = 100

Como se pode ver, o rendimento disponível (linha preta) subiu de forma constante desde os anos 70. No entanto, os preços reais das casas (linha vermelha) dispararam, especialmente depois de 2000. Até 2021, os preços das casas mais do que quadruplicaram, enquanto o rendimento apenas duplicou.

Este desfasamento está no centro da crise de acessibilidade à habitação no Canadá. Mesmo com taxas um pouco mais baixas, muitas famílias continuam sem conseguir entrar no mercado.


6. Incerteza é a palavra-chave

Na conferência de imprensa mais recente, o Banco do Canadá repetiu várias vezes uma palavra: incerteza.

Entre os riscos comerciais, a inflação imprevisível e uma trajetória incerta das taxas de juro, não há garantias sobre o que poderá acontecer. E isso torna o planeamento mais difícil para quem quer comprar, renovar ou investir.

O governador Macklem reconheceu esta realidade ao afirmar:

Tiff Macklem

-governador do Banco do Canadá-

Acho que dar aos canadianos uma falsa sensação de precisão não seria um bom serviço.

A mensagem é clara: o Banco não está a fazer promessas. Está a adotar uma posição cuidadosa face ao contexto atual.


Porque é que isto importa

Ainda não sabemos com certeza para onde caminham as taxas ou os preços das casas. Mas compreender como as decisões do Banco do Canadá afetam as taxas de juro e a acessibilidade à habitação ajuda os canadianos a perceber melhor o que está a acontecer — e a preparar-se para o que pode vir.

Num cenário onde ninguém está a dar garantias, informação clara continua a ser a melhor ferramenta.


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Sobre o Autor

Paulo Rocha é Agente Sénior de Crédito Hipotecário na Mortgage Scout Inc., com mais de 35 anos de experiência a ajudar pessoas a poupar de forma mais inteligente, a reter mais do que ganham e a fazer crescer o seu património. Iniciou a sua carreira enquanto estudava Contabilidade e Economia na York University, e trabalhou em alguns dos maiores bancos do Canadá — RBC, TD Canada Trust, Scotiabank e CIBC — onde apoiou clientes com hipotecas, estratégias de crédito e planeamento financeiro pessoal.

Antes de se dedicar em exclusivo ao setor hipotecário, Paulo foi Consultor de Investimentos na Edward Jones, uma das maiores empresas de investimentos da América do Norte. Aí, trabalhou de perto com famílias na criação de planos práticos para investimentos, reforma e proteção patrimonial — sempre com objetivos reais no centro das decisões.

Defensor ativo da literacia financeira, Paulo é especialmente dedicado a ajudar a comunidade Luso-Canadiana a ganhar mais controlo sobre o seu futuro financeiro. Ao longo dos anos, manteve um forte envolvimento comunitário, tendo sido Vice-Presidente da Federação de Empresários e Profissionais Luso-Canadianos (FPCBP) e, atualmente, Diretor na ACAPO (Aliança dos Clubes e Associações Portuguesas de Ontário).

O Ganhos e Gastos nasceu da convicção de Paulo de que a educação financeira deve ser simples, prática e acessível — ajudando as pessoas comuns a tomar decisões mais inteligentes e a construir um futuro financeiro mais sólido, um passo de cada vez.